Leivas


O mestre de francês que carecia de tradução e o diretor que esguichava cerveja pelas ventas: este era o Seu Leivas sob o olhar atento de Helena Morley.
Ele foi descrito por Helena Morley, em vários trechos do diário. Ele acumulou as funções de diretor escolar e professor de francês em Diamantina. Helena Morley registrou que ele interrogava fatos e dirigia sermões constantes às alunas. Em eventos sociais, o indivíduo consumia álcool até atingir o estado de embriaguez. Durante um banquete, ele reteve cerveja na boca até que o líquido saiu pelas narinas, atingindo os pratos de comida.
Na condição de docente, proferiu um brinde em francês a um visitante que não compreendeu o discurso, tornando necessária a tradução por parte da autora do diário. No campo das finanças, o sujeito obteve as economias de uma agregada, Fifina, sob promessa de juros, mas não restituiu o montante. Enquanto mantinha a dívida, ele censurava a conduta de Fifina durante as refeições. O diário também relata comentários sobre o formato do nariz do professor, detalhe que o homem admitiu ao confrontar Morley sobre suas críticas.

Trecho do Diário: Helena Morley
Vovó, Fifina e as Economias Perdidas

“Vovó é a criatura melhor do mundo. Não sei se no caso dela eu agüentaria Fifina como ela agüenta. Mamãe conta que Fifina teve dinheiro, mas inventou casar com um rapaz mais moço e ele pôs fora tudo quanto ela tinha e sumiu.

Ela pôs o dinheiro na mão de Senhor Bispo a juros, mas Seu Leivas lhe prometeu pagar juros dobrados, e ela tomou o dinheiro e pôs na mão dele. Mas até hoje não viu nem um real. Além disso, quando ela vai jantar na casa dele ainda leva pito na mesa. Ela forra o prato com feijão e farinha e pôs por cima arroz e carne. Come as coisas de que gosta mais e deixa o feijão no prato. Seu Leivas lhe disse que não fizesse outra vez, que a comida ficando no prato ia jogada fora.”

— Domingo, 4 de junho. (Morley)

Trecho do Diário: Helena Morley
O Jantar de Siá Aninha e o “Bicudo” Seu Leivas

“Os jantares da casa de Seu Antônio Manuel são muito fartos. O maior comilão da cidade é Seu Antônio do Rego. O maior bebedor é nosso pobre professor Seu Leivas que em todas as festas acaba sempre bicudo (bêbado).

Eu olhei para Seu Leivas e vi-o encher as bochechas, de boca fechada, numa careta muito engraçada. Seu Antônio do Rego, quando viu aquilo, agarrou uma travessa de lombo de porco com batatas e escondeu debaixo da mesa. De repente, Seu Leivas encheu de novo as bochechas e dois esguichos de cerveja lhe saíram pelas ventas e regaram todos os pratos!

Seu Antônio do Rego pôs de novo a travessa na mesa dizendo: ‘Este, ao menos, está salvo; vamos aproveitar e comê-lo!’. Não pude acabar de jantar com meu frouxo de riso que não parava mais.”

— Segunda-feira, 24 de julho. (Morley)

Trecho do Diário: Helena Morley
O Brinde em Francês e o Nariz Torto

“Eu disse para as colegas: ‘Que vontade de pregar um sermão à toa tem este nosso diretor. Era bem melhor que ele mandasse consertar aquele nariz torto!’. Não tinha acabado de falar e o velho entrou e disse: ‘Ouvi me chamarem de nariz torto. O meu defeito está à vista’.

Houve um jantar oferecido ao Sr. Cugnin, da Companhia Boa Vista. Seu Leivas levantou-se e fez-lhe um brinde em francês. O homem não entendeu nem uma palavra. Vendo o embaraço do homem eu procurei traduzir o discurso; mas fiz a maldade de lhe contar que Seu Leivas era o nosso professor de Francês. Ele riu muito e disse que, do contrário, não poderia adivinhar o que Seu Leivas dissera.”

— Quarta-feira, 21 de agosto. (Morley)

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Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.