Ester


Ester surge nos relatos de Helena Morley como um agente de transformação estética e de defesa da autonomia individual. No campo da imagem, ela atua como uma ponte para a modernidade, substituindo métodos rústicos, como o uso de enxúndia de galinha, por intervenções contemporâneas que alteram a autopercepção de Helena. Para Ester, a beleza possui um valor prático na experiência social, o que a leva a incentivar a jovem a abandonar a resignação em relação à própria aparência.

Além da estética, Ester desempenha um papel fundamental na preservação da identidade da autora ao confrontar as expectativas institucionais da família. Ao aconselhar Helena contra a internação no Colégio das Irmãs, ela valida o temperamento alegre e expansivo da menina como um patrimônio a ser protegido contra o rigor do enclausuramento. Esse apoio é o fator determinante para que Helena realize um ato de rebeldia consciente, optando por um caminho que garanta sua liberdade e seu modo de ser.

Trecho do Diário: Helena Morley
Ester e a Descoberta da Beleza

“Conversando na pedreira eu disse que sabia que era feia, mas não me incomodava porque mãe Tina me criou sabendo que ‘o feio veve, o bonito veve, todos vevem’. Ester exclamou: ‘Você feia? Deixe-me arranjá-la e você verá’.

Ela pegou na tesoura e cortou-me o topete, penteou-me, depois me pôs pó-de-arroz, e quando eu olhei no espelho vi que não era feia. Elas riram muito quando eu contei o nosso sistema de untar o cabelo com enxúndia de galinha até ficar bem emplastado.

Ester me disse que lavasse os cabelos e fosse lá para me pentear na moda. Ela achou graça do ditado de mãe Tina e disse: ‘É verdade, mas o bonito veve melhor‘. Como estou hoje feliz de ter ficado bonita!”

— Quinta-feira, 24 de agosto. (Morley)

Trecho do Diário: Helena Morley
O Conselho de Ester e a Fuga do Colégio

“Fui à casa de Ester e Ramalho e eles não concordaram de maneira alguma com a minha internação no Colégio. Ester me disse: ‘Você com o regime das Irmãs vai perder esse gênio alegre e expansivo; vai ficar sem graça e virar outra. Não seja tola, bata o pé e não vá’.

Fui pensando pela rua: Ester é muito minha amiga e estudou no Colégio das Irmãs. Eu poderia perder o gosto que tenho por tudo na vida e ficar como Luisinha e minhas primas que são tão chocas.

Resolvi não entrar. No parlatório, deixei minhas primas entrarem e, disfarçando, saí pela porta e fui descendo a Rua da Glória. Mamãe me disse: ‘Quem vai perder é você mesma, quando vir sua irmã muito santinha e você aqui fora fazendo de rebeca de toda função’. Vou seguir o conselho de Ester.”

— Terça-feira, 5 de fevereiro. (Morley)


MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998

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Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.