Moysés de Paula


Intelectual de origem humilde formado no Seminário de Diamantina, Moysés atuou como professor primário e era respeitado como profundo latinista. Possuía uma biblioteca com obras raras e era frequentemente consultado para resolver disputas gramaticais. Sua popularidade derivava de seu orgulho desmedido e da mania de enrolar cigarros em papel de jornal para “fumar ideias”. Morreu em seu sobradinho na Rua do Rosário. “Feio, pauperrimo, mal trajado, foi um humilde vaso de barro onde vicejou com espantosa exuberancia a flôr do orgulho e independencia.”

Helena Morley faz um registro sobre ele:

Trecho do Diário: Helena Morley
A Casa de Janelas Fechadas

“Em frente à Chácara de vovó, na esquina da Rua do Rosário há uma casa onde nunca se abriu uma janela. Só de tarde se abre a porta e sai de dentro Moisés de Paula com um sobretudo muito velho, de mãos atrás das costas, a passear pela cidade. Moram também com ele dois irmãos seus, Manuel Arrã e Modesta. Manuel Arrã é negociante no Beco da Cavalhada Velha, com uma vendinha que só tem rapadura, polvilho e pé-de-moleque. Modesta não tem licença de pôr o nariz na janela.

Moisés faz todo o ano para o Natal um lindo presépio e nessa ocasião ele deixa que todos nós vamos vê-lo. Eu, desde pequenina, admirava Moisés como nunca admirei ninguém por causa dos presépios tão bonitos com o Menino Jesus deitadinho, cercado de bonecos e bichos tão bem feitinhos.

Todos nós temos muita curiosidade de conhecer a vida daquelas três criaturas tão metidas em casa, sem nunca abrirem nem uma janela. Se sai um dos irmãos, fecha logo a porta. Combinamos então mandar nossa prima pequenina, Ester, entrar lá com pretexto de perguntar a Modesta se tinha renda para vender. Ela é rendeira. Ester foi e passou lá algum tempo com Modesta. Quando Moisés a percebeu entrou na sala de jantar e disse: ‘Modesta, temos testemunha de vista em casa?’.

Ester, que é muito espertinha, correu para a Chácara e nos contou e nós satisfizemos a nossa curiosidade.”

Quarta-feira, 19 de julho. (Morley, 1998, p. 46)


FERNANDES, Augusto. Typos populares de Diamantina, 1931, p. 63, 67. Link: https://historiasemredes.com.br/referencia/fernandes-augusto-tipos-populares-de-diamantina-1931/
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998

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Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.