Dona Mariana


Dona Mariana é representada nos diários de Helena Morley como a matriarca e co-proprietária da fábrica do Biribiri, personificando uma imagem de prosperidade, ordem e “felicidade na terra”. Ela reside na casa-grande, descrita como um centro de hospitalidade absoluta, onde a mesa é farta e a residência está constantemente repleta de hóspedes e familiares. Morley a retrata como uma figura provedora e zelosa, que supervisiona pessoalmente a colheita de frutas para seus filhos e garante que a abundância da produção local seja distribuída entre a família e os operários. Embora pudesse ser severa ao aplicar castigos para conter comportamentos mimados das crianças, ela é lembrada por sua imensa generosidade, presenteando invariavelmente seus visitantes com fazendas (tecidos) da fábrica e doces.
Segundo Pedro da Mata Machado:
“[…] D. Marianna Felicio, senhora de rara energia e excepcional tino administrativo, mãe de vinte e cinco filhos […]” (MACHADO, 1927, p. 362).

Trecho do Diário: Helena Morley
A Felicidade na Terra: Dona Mariana e o Biribiri

“Estivemos conversando na mesa sobre a felicidade que Dona Mariana e o Major Antônio Felício conseguiram na terra. Eles são donos da fábrica e a família toda é empregada ali. Matam boi de manhã e os pedaços melhores vão para as casas dos filhos e para a casa-grande, que é onde mora Dona Mariana. O resto vai para o pessoal da fábrica.

A casa-grande de Dona Mariana é cercada de árvores frondosas. Ela vive com a casa sempre cheia de hóspedes e todos muito bem tratados. A mesa é muito grande e cheia de comidas. Dona Mariana tem frutas de todas as qualidades no quintal e ela mesma é quem gosta de ir com os empregados apanhar as frutas para mandar para os filhos.

Dona Mariana teve que fazer uma cama no chão para mim e Batistina. Ela começou a fazer manha que não queria dormir no chão. Dona Mariana ralhou e disse: ‘Seu castigo por essa manha vai ser amanhã. Eu vou dar a Helena um presente bonito e não te dou nada’. No outro dia, ela abriu um armário e tirou dois xales pequenos, um azul e outro cor-de-rosa. Batistina logo pegou no cor-de-rosa e ela me deu o azul. Lembro-me ter estranhado Dona Mariana não cumprir o que tinha dito na véspera. Sempre que vamos ao Biribiri voltamos carregados de presentes. Dona Mariana dá-nos das fazendas da fábrica.”

— Quarta-feira, 17 de maio. (Morley)

Trecho do Diário: Helena Morley
O Genro Ilustre e o Engano de Mamãe

“Ontem morreu no Biribiri o Dr. Joaquim Felício dos Santos. Meu pai diz que ele era um homem muito inteligente e ilustrado. Ele morava nesse tempo na Chácara das Bicas e trabalhava o dia inteiro num código civil que o governo o incumbiu de fazer.

Estávamos no Biribiri o ano atrasado e depois do almoço era obrigação sairmos todos fazendo visitas às filhas de Dona Mariana. O Dr. Joaquim Felício era genro dela. Dona Mariquinha contava a mamãe que ‘Joaquim’ foi subir num banquinho para apanhar uvas na parreira e levou uma grande queda e ela tinha levado muito susto.

Mamãe não compreendeu que ela falava do marido e quando foi passando um negro velho de muletas mamãe perguntou: ‘Foi este que caiu?’”

— Domingo, 26 de novembro e Terça-feira, 22 de outubro. (Morley)


Referências
MACHADO, Pedro da Matta. João da Matta Machado Junior (Traços Biographicos). Revista do Archivo Publico Mineiro, ano XXI, fasc. III, p. 349-366, 1927
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. Ilustrações Lúcia Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 1998

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Vitória Azevedo da Fonseca

Historiadora e professora na UFVJM, Vitória é movida pelo desafio de transpor os muros da universidade, unindo o rigor da pesquisa à inovação e à criatividade. Como idealizadora do projeto Histórias em Redes, ela transforma o espaço urbano em um território de aprendizagem viva, democratizando narrativas e conectando o saber acadêmico ao cotidiano das ruas.