O hospital foi fundado no Arraial do Tijuco (atual Diamantina) durante a época do sistema de contratos da mineração de diamantes, que vigorou entre 1740 e 1771 (GUSMÃO et al., 2013). Sua criação ocorreu em decorrência do extraordinário número de escravizados que trabalhavam na extração mineral, visando tratar as doenças e os acidentes de trabalho habituais para preservar a força da mão de obra (GUSMÃO, 2012, p. 6). O nome da instituição deriva do fato de que, nesta fase, todos os gastos com o hospital e os honorários médicos eram de total responsabilidade financeira do Contratador (GUSMÃO, 2012, p. 6).
Apesar de ter um foco voltado aos escravizados da mineração, o hospital também prestava atendimentos filantrópicos financiados pelos arrendatários. O contratador João Fernandes de Oliveira , por exemplo, mandava tratar no hospital, “pelo amor de Deus”, pessoas extremamente pobres que padeciam de cânceres e úlceras (MENDES, 1770, p. 133). Ele ficava admirado com o sucesso dos tratamentos e as pessoas, segundo Mendes, uma vez curadas, deviam ir até ele render-lhe as graças (MENDES, 1770, p. 133).
A principal fonte de informação sobre o referido hospital é a obra de Mendes Governo dos mineiros….. Renomados profissionais passaram por lá, como o cirurgião José Gomes Ferreira, que chegou no final da década de 1740, e possivelmente o médico Manuel Pires Sardinha, que foi o primeiro senhor de Chica da Silva (GUSMÃO et al., 2013). O principal nome da instituição, contudo, foi o cirurgião português José Antônio Mendes, que clinicou nos “Hospitais do Contrato Diamantino” por mais de 30 anos (MENDES, 1770, p. XII; RIBEIRO, 2005, p. 67).
Enfrentando uma demanda altíssima — chegando a atender mais de 500 pacientes sofrendo de “cursos de sangue” (diarreia sanguinolenta) em um único ano (GOMES, 2022, p. 38) —, Mendes publicou, em 1770, o manual Governo de Mineiros. A obra foi escrita para socorrer e guiar o tratamento de doentes no interior da colônia, já que a maioria das populações vivia a léguas de distância de boticas e de professores habilitados (MENDES, 1770, p. 68; VIOTTI, 2020, p. 190).
Com a promulgação do “Regimento Diamantino” em 1771, a Coroa Portuguesa assumiu o monopólio da exploração de diamantes. O hospital não foi extinto: seus custos foram transferidos para a Real Intendência dos Diamantes, e o local passou a ser referido também como “hospital da administração” (GUSMÃO, 2012, p. 6; CONCEIÇÃO, s/d). Os registros confirmam o funcionamento contínuo nesta fase, apontando que diversos escravizados pertencentes à própria Chica da Silva morreram após internação no local, constando nos documentos que faleciam “confessados e ungidos”, o que presume a existência de um capelão anexo ao hospital (GUSMÃO, 2012, p. 6).
A data de fechamento do Hospital do Contrato é desconhecida, mas sabe-se que ele adentrou a virada do século XIX em atividade, período no qual contou com os serviços do Dr. José Vieira Couto (1752-1827). A trajetória do médico iluminista na instituição terminou de forma abrupta e conflituosa ao ser sumariamente demitido e perseguido por despotismo pelo intendente João Inácio do Amaral Silveira, que governou o distrito entre 1795 e 1801 (GUSMÃO et al., 2013).
Por fim, as publicações preservadas e a documentação não fazem menção e não oferecem indicações da localização exata do prédio do Hospital do Contrato no tecido urbano do antigo Arraial do Tijuco (CONCEIÇÃO, [s.d.]).
Uma nota sobre a historiografia
A base para quase tudo o que se sabe sobre o cotidiano médico do Hospital do Contrato vem de um relato em primeira pessoa do cirurgião José Antônio Mendes. Em sua obra Governo de Mineiros (publicada em Lisboa em 1770), ele atesta que trabalhou por muitos anos como cirurgião nos “Hospitais do Contrato Diamantino no Serro do Frio” e no hospital do Regimento dos Dragões. É Mendes quem fornece a informação, exaustivamente citada por pesquisadores modernos, de que o contratador João Fernandes de Oliveira mandava curar no hospital, por caridade, os pobres que padeciam de úlceras e cânceres, ficando admirado ao vê-los curados.
Por outro lado, há também outras fontes citadas:
Um livro de registros da Administração Geral de Diamantina, preservado no Museu do Ouro em Sabará, é citado para comprovar o funcionamento do hospital sob tutela da Coroa.
Uma carta do governador Bernardo José de Lorena enviada à Corte é usada como prova de que o hospital continuava ativo, pois relata que o intendente João Inácio do Amaral Silveira havia demitido o médico José Vieira Couto (que lá trabalhava).
O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire é frequentemente citado pelos autores modernos para descrever o cenário de saúde, a administração diamantina e os médicos que atuaram na região.
As obras da historiadora Júnia Ferreira Furtado (como Chica da Silva e o Contratador dos Diamantes e sua organização do Erário Mineral) e de Márcia Moisés Ribeiro servem de base para os estudos subsequentes. Elas resgatam a história do hospital a partir dos originais de José Antônio Mendes e dos relatos sobre os escravizados de Chica da Silva.
Em seu artigo médico-histórico de 2012/2013 (Hospital do Contrato Diamantino, Santa Casa de Diamantina e Hospício da Diamantina), Gusmão e seus coautores organizam a cronologia do hospital e cita diretamente as obras de Júnia Ferreira Furtado e Márcia Moisés Ribeiro para atestar que, após 1771, os custos do hospital passaram para a Real Intendência e que escravizados de Chica da Silva faleceram lá. Ele também cita a fonte primária de José Antônio Mendes (Governo de Mineiros) e o Erário Mineral de Luís Gomes Ferreira.
Ao escrever a Crônica Histórica da Santa Casa de Diamantina Wander se apoia quase inteiramente no artigo de Sebastião Gusmão. Ele reproduz a explicação de Gusmão sobre a transição do sistema de contratos e faz questão de registrar que Gusmão, por sua vez, se valeu das publicações de M.M. Ribeiro e Júnia Ferreira Furtado para chegar a essas conclusões.
Em sua dissertação de mestrado de 2022 (Os registros de três cirurgiões sobre o tratamento dos corpos enfermos nas Minas Setecentistas), Gislane dos Santos Gomes analisa detalhadamente o manual de José Antônio Mendes. Quem ela cita: Quando Gislane introduz o “Hospital do Contrato Diamantino”, afirmando ser o local onde Mendes assistiu uma multidão de enfermos, ela cita o artigo de Gusmão, Magnani e Ramos Júnior (2013) como sua fonte historiográfica contemporânea, além de citar diretamente o Governo de Mineiros de Mendes.
Referências
CONCEIÇÃO, Wander. Síntese Histórica da Santa Casa de Caridade de Diamantina. In: Crônica Histórica da Santa Casa de Diamantina. [S.l.: s.n., s.d.].
GOMES, Gislane dos Santos. Os registros de três cirurgiões sobre o tratamento dos corpos enfermos nas Minas Setecentistas. 2022. 149 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Franca, 2022.
GUSMÃO, Sebastião Nataniel da Silva. Três Hospitais do Velho Tijuco – Hospital do Contrato Diamantino, Santa Casa de Diamantina e Hospício da Diamantina. Diamantina: [s.n.], 2012. Mimeo.
GUSMÃO, Sebastião Silva; MAGNANI, Maria Cláudia Almeida Orlando; RAMOS JÚNIOR, Silvio Pereira. Hospital do Contrato Diamantino, Santa Casa de Diamantina e Hospício da Diamantina. Revista Médica de Minas Gerais, v. 23, n. 2, p. 249-263, 2013.
FURTADO, Júnia Ferreira. Barbeiros, cirurgiões e médicos na Minas colonial. Revista do Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte, ano XLI, p. 88-105, jul./dez. 2006.
MENDES, José Antonio. Governo de Mineiros mui necessario para os que vivem distantes de professores seis, oito, dez e mais léguas… Lisboa: Oficina de Antonio Roiz [Rodrigues] Galhardo, 1770.
RIBEIRO, Márcia Moisés. Nem nobre, nem mecânico: A trajetória social de um cirurgião na América portuguesa do século XVIII. Almanack braziliense, São Paulo, n. 02, p. 64-75, nov. 2005.
VIOTTI, Ana Carolina de Carvalho. As medicinas das Minas Gerais a partir de três manuais Setecentistas. Khronos, Revista de História da Ciência, São Paulo, n. 9, p. 183-203, jun. 2020


